
QUEM É SHIRDI SAI
A seguir, você encontrará textos introdutórios sobre a origem de Baba, Sua vida, Seu nome e o modo como Ele orientava e se relacionava com Seus devotos.
A vida de Shirdi Sai Baba permanece envolta em mistério e milagres. Nesta seção reunimos informações sobre Sua origem, vida, nome e o modo como Ele orientava e se relacionava com Seus devotos.
Os textos desta seção foram escritos com um propósito específico: servir de primeiro contato para quem ainda não tem familiaridade com Baba, seus ensinamentos e o ambiente religioso em que Ele viveu e ensinou. Diferente dos demais materiais traduzidos neste site — escritos por discípulos diretos e de gerações seguintes —, esta sequência introdutória busca facilitar a chegada de leitores de língua portuguesa, oferecendo um caminho de entrada antes do mergulho nos textos mais belos e profundos disponíveis nas demais seções.
O conteúdo apresentado a seguir está fortemente ancorado no livro sagrado Shri Sai Satcharita (1), escrito em marathi por Govind Raghunath Dabholkar, conhecido como Hemadpant, com a aprovação explícita de Shirdi Sai. Ao receber o pedido para registrar Sua vida, Baba declarou: "É bom manter um registro. Ele [Hemadpant] é apenas o instrumento, pois Eu mesmo escreverei Minha própria história" (cap. 2, versos 75-76). A obra, cuja primeira edição foi publicada em 1930, ocupa um lugar singular na tradição de Shirdi Sai. Mais do que biografia devocional, é um pothi (texto sagrado), cuja leitura é uma forma de tornar Baba e Seus ensinamentos presentes.
O Shri Sai Satcharita é uma obra narrada a partir do hinduísmo — afinal, esta foi a tradição de seu autor e o solo espiritual em que o livro floresceu. Até onde conseguimos pesquisar, não encontramos nenhum biógrafo muçulmano de Shirdi Sai e, por isso, a forma Sua vida seria narrada por devotos muçulmanos a partir da tradição sufi fica limitada.
O próprio Narasimhaswamiji, discípulo de Baba (da segunda geração) e um de Seus mais influentes biógrafos hindus, afirmou que "as ideias nas quais Baba estava completamente imerso até o fim não eram de forma alguma distinguíveis do sufismo" (Narasimhaswamiji, Life of Sai Baba, vol. III, p. 152). Saburi, por exemplo — um dos grandes ensinamentos de Baba, geralmente traduzido como "paciência e persistência" — é, em sua origem, um termo sufi. Neste site, o mais próximo que conseguimos chegar dessa tradição é o diário de Abdul Baba, devoto muçulmano que conviveu intimamente com Ele. A tradução desse diário estará disponível em breve aqui, no Jardim de Shirdi Sai.
Embora falem linguagens diferentes, as tradições hindu e islâmica que cercaram Baba convergem para um mesmo centro: o amor de Baba e o amor por Baba. "A vida de Sai é um grande oceano — sem limites, infinito, uma mina de pedras preciosas", escreveu Hemadpant, comparando-se a um pequeno pássaro tentando esvaziar esse oceano. "É impossível narrá-la plena e satisfatoriamente. Deve-se, portanto, contentar-se em narrar o quanto se pode, e da melhor forma possível" (cap. 2, versos 34-35).
A humildade de Hemadpant ao se comparar a um pássaro diante do oceano nos inspira entrega e humildade. Diferente do Shri Sai Satcharita — que é a própria palavra de Baba manifesta por Ele por meio de Hemadpant, e cuja leitura tem nos acompanhado nos últimos 18 meses — os textos abaixo não pretendem ensinar ou narrar. Pretendem, apenas, estender a mão: um gesto singelo de quem bebeu algumas gotículas desse oceano e deseja compartilhar o frescor com quem agora chega ao Jardim de Shirdi Sai.
Baba realiza Sua própria obra e encontra Seus devotos por caminhos que frequentemente escapam à compreensão humana. Em Suas próprias palavras: "aquele que é meu, por mais distante que esteja — mesmo além dos sete mares —, eu o atrairei para junto de mim, assim como um pássaro é puxado por uma linha amarrada ao seu pé" (cap.51, verso 28).
Se estes textos puderem servir de auxílio nessa jornada, que seja apenas como instrumento de algo que nos ultrapassa. O que houver de verdadeiro e útil nestas páginas pertence a Baba; os erros e limitações são inteiramente nossos. É com esse espírito que convidamos você a percorrer os textos que seguem.
Por fim, e muito relevante, para aqueles que desejam se aprofundar no conhecimento sobre Sri Shirdi Sai Baba, sugerimos a leitura do material que estamos traduzindo e disponibilizando gradualmente no Jardim de Shirdi Sai. São textos escritos por discípulos diretos de Baba, como Hemadpant, Abdul Baba e Das Ganu Maharaj, bem como por devotos das gerações seguintes, que preservaram, reuniram e transmitiram os ensinamentos, as experiências e os testemunhos daqueles que conviveram com Ele, como o fez H. H. Narasimhaswamiji.
Essas traduções, realizadas por nós com reverência, dedicação e amor, estão disponíveis nas subseções Perspectiva Sufi e Perspectiva Bhakti, que você encontra na seção Shirdi Sai > Olhares sobre Shirdi Sai. Esperamos que esse material contribua para um conhecimento cada vez mais profundo da vida, dos ensinamentos e das leelas de Sri Shirdi Sai Baba. Ao mesmo tempo, desejamos recordar que nenhuma dessas leituras substitui o Shri Sai Satcharita, obra fundamental para quem deseja não apenas se aproximar de Baba e de seus ensinamentos, mas render-se a Seus pés de lótus.
Nota:
1. Existem diversas edições e traduções da obra, tanto em versões integrais quanto em compilações. A edição utilizada neste site foi uma versão integral traduzida para o inglês: "Shri Sai Satcharita: The Life and Teachings of Shirdi Sai Baba" (trad. Indira Kher), Sterling Publishers, 1999.
Breves palavras ao leitor
O nome pelo qual o mundo conhece Shirdi Sai Baba não é exatamente um nome pessoal. É uma descrição de quem Ele era, de como vivia, de onde habitava espiritualmente. E nessa dupla designação — Sai e Baba — já está contida parte da riqueza que marcou Sua vida.
Segundo uma das etimologias mais difundidas, Sai deriva do persa sa'ih, termo empregado para designar faquires muçulmanos itinerantes. Muitos desses faquires levavam uma vida errante, deslocando-se continuamente entre diferentes localidades e vivendo com poucos ou nenhum pertence. “Sai” não era originalmente um título honorífico nem um nome de nascimento. Antes, era uma condição existencial: a do homem que caminha sem se fixar, que pertence ao Divino antes de pertencer a qualquer lugar.
Baba, por sua vez, é um título honorífico amplamente empregado na tradição sufi para designar mestres espirituais reconhecidos, tais como Tajuddin Baba, Seu contemporâneo, ou o célebre Baba Farid, grande sheikh da ordem Chishti no século XIII. Mas Baba também é uma palavra viva no marathi, a língua de Maharashtra, que significa pai — sentido que encontra eco no árabe coloquial, em que baba é uma forma afetuosa para papai. Em ambas as línguas, a palavra carrega intimidade, proximidade e carinho, muito mais do que formalidade ou autoridade.
Quando Mhalsapati, o sacerdote do templo local de Khandoba, viu aquele jovem faquir chegar a Shirdi pela segunda vez, em meio a um cortejo nupcial, saudou-O espontaneamente com as palavras em marathi: “Ya Sai!” — “Bem-vindo, Sai!". Não havia ali a intenção de batizar ninguém. Era apenas o reconhecimento imediato de um faquir muçulmano itinerante. Mas o nome permaneceu. E se eternizou.
Há algo curioso no fato de que esse nome tenha surgido dessa maneira: um sacerdote hindu utilizando uma palavra de origem persa para saudar um jovem faquir cuja origem não seria conhecida com certeza. Sai Baba nunca reivindicou um nome, uma linhagem ou uma identidade religiosa exclusiva. O nome pelo qual passou a ser conhecido nasceu do reconhecimento espontâneo de alguém que O encontrou pelo caminho.
Antes mesmo de Seus ensinamentos se tornarem conhecidos, o próprio nome já reunia tradições, idiomas e universos culturais que muitos julgavam separados. A nomeação " Sai" acabou por refletir uma das características mais marcantes de Sua presença: a capacidade de aproximar pessoas, crenças e caminhos distintos. Baba recebeu um nome que expressava exatamente aquilo que Sua vida viria a revelar: que o Divino não se deixa aprisionar pelas fronteiras e desigualdades que os homens insistem em criar.
Sai Baba: a história de Seu nome
Entre os muitos aspectos que cercam a vida de Shirdi Sai Baba, poucos permanecem tão envoltos em incerteza quanto Sua origem.
Diferente de outros santos e mestres espirituais da Índia, cuja infância, linhagem familiar ou formação religiosa foram registradas por discípulos e cronistas, quase nada se sabe com segurança sobre os anos que antecederam Sua chegada a Shirdi. Quando Ele apareceu na aldeia, já era um jovem asceta. Tudo o que teria ocorrido antes disso permanece parcialmente oculto por lacunas documentais, relatos fragmentados e tradições que nem sempre concordam entre si.
Essa ausência de informações nunca representou um problema para Seus devotos. Baba é compreendido como uma manifestação direta do Divino, e Sua importância não depende de uma genealogia, de uma data de nascimento ou de uma identidade religiosa claramente definida. Nas preces, nos templos e na memória viva dos devotos, Baba simplesmente está presente. Ele simplesmente é. Sua origem pertence ao mistério.
Ainda assim, desde as primeiras décadas do século XX, devotos e pesquisadores procuraram reunir os poucos indícios disponíveis sobre o período anterior à Sua chegada a Shirdi. O resultado desse esforço não foi o surgimento de uma narrativa definitiva, mas de um conjunto de hipóteses que, em alguns pontos, convergem e, em outros, divergem significativamente.
Entre os elementos mais frequentemente mencionados encontra-se a afirmação atribuída ao próprio Baba de que Ele teria nascido em Pathri, então localizada nos domínios do Nizam de Hyderabad, governante muçulmano do Estado principesco de Hyderabad. Segundo relato atribuído a Mhalsapati e posteriormente registrado por B. V. Narasimhaswamiji, Baba teria afirmado: "Eu era um brâmane de Pathri. Quando eu era jovem, meus pais me entregaram a um faquir". Dessa breve declaração formou-se a versão segundo a qual Baba teria nascido em uma família hindu brâmane e sido criado por um casal muçulmano. É nesse momento que os relatos começam a seguir caminhos diferentes.
B. V. Narasimhaswamiji, devoto e um dos primeiros e mais influentes biógrafos de Baba, registrou a tradição segundo a qual, após a morte do faquir, o jovem teria sido confiado aos cuidados de um guru hindu chamado Gopal Rao Deshmukh, conhecido como Venkusha, em Selu (1). Sob sua orientação, Baba teria permanecido por vários anos em intensa disciplina espiritual antes de iniciar a vida errante que O conduziria a Shirdi.
Décadas mais tarde, a pesquisadora Marianne Warren (2) revisitou essa narrativa durante suas pesquisas de campo em Maharashtra. Ao examinar inscrições preservadas em Selu, encontrou uma dificuldade cronológica: as datas associadas a Gopal Rao Deshmukh indicariam sua morte em 1801 ou 1802, mais de três décadas antes do nascimento tradicionalmente atribuído a Baba, por volta de 1838.
Diante dessa inconsistência, Warren sugeriu que diferentes memórias e tradições locais poderiam ter sido reunidas sob um mesmo nome ao longo do tempo, preservando apenas fragmentos de acontecimentos mais antigos. Entre as possibilidades discutidas por ela estão a de um mestre sufi chamado Venku Shah e a de Roshan Shah Mian, ambos mencionados em algumas fontes relacionadas à formação espiritual de Baba.
As fontes atualmente disponíveis não permitem reconstruir com segurança o período anterior à chegada de Baba a Shirdi. O que existe é um conjunto limitado de evidências, interpretadas de maneiras distintas por acadêmicos e devotos.
Durante toda a vida, Baba evitou esclarecer de forma conclusiva quem era, de onde vinha ou a qual tradição religiosa pertencia. Quando questionado, frequentemente respondia de modo enigmático, mudava de assunto ou oferecia respostas que abriam novas perguntas.
Essa recusa em se deixar definir aparece com clareza em um episódio descrito no livro O Incrível Sai Baba, de Arthur Osborne (3). Quando um magistrado foi enviado a Shirdi para tomar o depoimento de Baba em uma investigação judicial, iniciou o interrogatório com perguntas simples e objetivas:
— Qual é o seu nome?
— Eles me chamam de Sai Baba.
— O nome de seu pai?
— Também Sai Baba.
— O nome de seu Guru?
— Venkusa.
— Religião?
— Kabir.
— Casta?
— Parvardigar.
— Idade?
— Centenas de milhares de anos.
Em vez de oferecer informações biográficas, Baba respondeu de uma forma que dissolvia as próprias categorias da pergunta. "Parvardigar" é um dos nomes de Deus na tradição persa e urdu, significando "O Sustentador" ou "O Provedor". "Kabir" remete ao grande santo-poeta que atravessou as fronteiras entre hinduísmo e islamismo. E Sua idade não era medida em anos, mas em eternidade. O episódio ilustra algo que aparece ao longo de Sua vida: quando tentavam reduzi-Lo a uma identidade fixa, Baba deslocava a conversa para um plano mais amplo.
Algo semelhante aparece em um dos capítulos de Shri Bhaktalilamrita, obra escrita por Das Ganu, discípulo e grande divulgador de Baba. Diante da mesma pergunta sobre Sua origem, Baba respondeu com uma voz que Das Ganu compara ao trovão de nuvens carregadas de chuva: "Não tenho morada fixa. Sou o Brahman absoluto, sem atributos. Por força dos laços do karma apareci na carne. Essa carne se chama corpo, e meu nome é simplesmente aquele que habita o corpo. Minha morada é o mundo. Brahma é meu pai e Maya é minha mãe. Da união dos dois recebi esta forma" (4).
Para aqueles que encontram n'Ele o Divino, a origem nunca foi essencial. A história preservou perguntas sem resposta sobre Seus primeiros anos, Sua família e Sua formação espiritual. Mas, para incontáveis devotos ao longo das gerações, estas nunca foram as questões mais importantes. O mistério permanece. Baba também.
Notas:
1.Esta informação pode ser lida no livreto "Who's Sai Baba of Shirdi", escrito por B. V. Narasimhaswamiji e disponibilizado (com tradução em português) na seção Shirdi Sai > Perspectiva Hindu.
2.Unravelling the Enigma: Shirdi Sai Baba in the Light of Sufism, de Marianne Warren. Sterling Publishers, 2000.
3.O Incrível Sai Baba, de Arthur Osborne - a vida e os milagres do santo de Shirdi. Coração Infinito Publicações, 2024. Este foi o primeiro livro escrito sobre Baba por um ocidental e também o primeiro a ser traduzido para o português.
4.Esta citação foi retirada do cap.31, verso 17-21 da obra Shri Bhaktalilamrita, de Das Ganu Maharaj. A tradução para o português foi feita a partir da versão traduzida para inglês dos 3 capítulos sobre Shirdi Sai Baba, presentes neste livro, e gentilmente disponibilizada pelo site www.saileelas.org
Relatos sobre as origens de Shirdi Sai
O Shri Sai Satcharita narra a chegada de Baba com o cortejo nupcial de Chand Patil como o início de Sua permanência definitiva em Shirdi. Quando a comitiva alcançou a aldeia, ninguém poderia imaginar que aquele jovem faquir silencioso transformaria para sempre a história do lugar e de centenas de milhares de devotos mundo afora.
Aquela, porém, não era Sua primeira passagem por Shirdi. Anos antes, Baba já havia aparecido nos arredores da aldeia e permanecido por algum tempo sob uma árvore de neem (amargosa). Absorto em práticas espirituais austeras e longos períodos de contemplação, despertava curiosidade entre os moradores, mas pouco revelava sobre Si. Depois partiu tão silenciosamente quanto chegara.
A história de Seu retorno, narrada no capítulo 5 do Shri Sai Satcharita, começa nas proximidades da vila de Dhoopkheda (distrito de Aurangabad), onde vivia Chand Patil, um influente muçulmano da região. Durante uma viagem, Patil perdeu sua égua e passou longo tempo procurando-a sem sucesso. Certo dia encontrou um jovem faquir sentado sob uma mangueira. O desconhecido perguntou-lhe o motivo de sua preocupação e indicou o local onde o animal poderia ser encontrado. Para surpresa de Patil, a égua estava exatamente onde havia sido indicada.
Impressionado com o episódio, Chand Patil convidou o jovem faquir a acompanhá-lo ao casamento de um parente que seria celebrado em Shirdi. Baba aceitou o convite e seguiu viagem com a comitiva.
Quando o cortejo alcançou a aldeia, as carroças pararam diante do templo de Khandoba. Ao ver o jovem faquir descer, Mhalsapati, sacerdote do templo, saudou-O espontaneamente: "Ya Sai!”, "Bem-vindo, Sai!". A saudação simples daquele momento acabaria se tornando o nome pelo qual Baba seria conhecido por milhões de pessoas ao redor do mundo (para mais detalhes, ver o texto "Sai Baba: a história de Seu nome”). Foi a partir dessa chegada que Sua presença passou a integrar definitivamente a vida de Shirdi.
Nos anos seguintes, Baba levou uma vida marcada pela simplicidade e pela austeridade. Após períodos passados sob a árvore de neem e em outros locais da aldeia, estabeleceu-se em uma antiga mesquita em ruínas que mais tarde seria conhecida como Dwarkamai, um dos espaços mais sagrados associados à Sua vida. Foi ali que manteve continuamente aceso o dhuni, o fogo sagrado cujas cinzas, conhecidas como udi, eram distribuídas aos devotos. Até hoje esse fogo permanece aceso em Dwarkamai, e a udi continua sendo oferecido aos peregrinos que visitam Shirdi.
Com o passar dos anos, um número cada vez maior de pessoas começou a procurá-Lo. Alguns buscavam cura para doenças, outros orientação espiritual, auxílio para dificuldades familiares ou simplesmente a oportunidade de permanecer alguns instantes em Sua presença. Expressões islâmicas como "Allah Malik”, "Deus é o Senhor”, eram frequentemente ouvidas de Seus lábios, enquanto, ao mesmo tempo, Ele permitia práticas e festividades importantes aos devotos hindus. Sua vida possibilitava a união de tradições distantes e de pessoas das mais diversas origens.
Pouco a pouco, a pequena aldeia de Shirdi tornou-se destino de peregrinos vindos de diferentes regiões da Índia. O que começou com a chegada silenciosa de um jovem faquir transformou Shirdi em um dos mais importantes centros de peregrinação do país.
Hemadpant observa no Shri Sai Satcharita que os santos descem à Terra para aliviar sofrimentos, fortalecer a fé e conduzir os seres humanos ao caminho espiritual. Os habitantes de Shirdi ainda não sabiam, mas naquele dia em que as carroças pararam diante do templo de Khandoba, tinha início uma Presença cuja influência ultrapassaria os limites da aldeia e alcançaria incontáveis vidas em todo o mundo, através das gerações até os dias de hoje.
Chegada à vila de Shirdi
Durante mais de meio século, Sri Sai Baba viveu em Shirdi. Embora alguns aspectos de Sua rotina tenham permanecido constantes ao longo das décadas, outros foram se transformando à medida que um número cada vez maior de pessoas passava a procurá-Lo. Falar de Sua rotina diária, contudo, exige uma ressalva: Baba jamais poderia ser reduzido a um simples horário ou sequência de atividades, pois aqueles que conviveram com Ele frequentemente testemunharam uma presença que transcendia as limitações de tempo e espaço. Ainda assim, foi nessa vida aparentemente comum que se manifestaram Seus ensinamentos, leelas e formas de orientação que marcaram profundamente, e ainda marcam, a vida de Seus devotos.
Grande parte do Seu tempo era passada na Dwarkamai, a antiga mesquita em ruínas que se tornou Sua morada. Foi ali que Baba viveu Sua rotina diária: preparava alimento para os pobres em grandes potes de barro (handi), curava enfermos, orientava aqueles que buscavam Sua ajuda e realizou alguns de Seus milagres mais conhecidos, como acender lâmpadas utilizando apenas água ou moer o trigo que afastaria a epidemia de cólera que ameaçava Shirdi.
No interior da Dwarkamai ardia continuamente o dhuni, fogo sagrado mantido aceso por Baba ininterruptamente durante décadas. Do Dhuni era retirada a udi, cinza sagrada que Ele distribuía diariamente a quem O procurava. Em inúmeros episódios, a udi aparece associada a curas, proteção e auxílio em situações difíceis. Baba frequentemente orientava que ela fosse aplicada sobre o corpo ou ingerida com fé. Ao mesmo tempo, a udi recordava um ensinamento que Ele transmitia repetidamente: tudo o que pertence ao mundo material é transitório e, mais cedo ou mais tarde, retorna às cinzas.
Todas as manhãs, Baba percorria as mesmas cinco casas da aldeia pedindo pequenas porções de alimento. Era a prática da bhiksha. Embora garantisse Seu sustento, o significado dessa prática era muito mais profundo: ao oferecer alimento a Baba, os chefes de família eram agraciados com a oportunidade de cumprir deveres espirituais ligados à caridade, à hospitalidade e à partilha. A bhiksha beneficiava sobretudo aqueles que a ofereciam. Após concluir a ronda diária, Baba retornava à Dwarkamai com os alimentos recebidos, vivendo com simplicidade, desapego e total ausência de interesses materiais.
Ao longo do dia, a Dwarkamai tornava-se o centro da vida espiritual da aldeia. Era ali que os visitantes vinham para o darshan de Baba. Em Seus últimos anos, Ele também passou a solicitar dakshina (doações em dinheiro) àqueles que tinham condições de oferecê-la. Todo o valor recebido, porém, era redistribuído aos necessitados antes do fim do dia, sem qualquer forma de acumulação de riqueza. Da mesma forma, grande parte dos alimentos obtidos por meio da bhiksha era compartilhada com outras pessoas. Sua relação com os bens materiais revelava um profundo espírito de desapego e um modo de vida marcado pela austeridade.
As caminhadas ao Lendi Baug também faziam parte de Sua rotina. Baba visitava o jardim duas vezes por dia, geralmente acompanhado por alguns de Seus devotos mais próximos. No Shri Sai Satcharita, Hemadpant registra que Ele próprio trazia mudas da aldeia vizinha de Rahata, plantava-as e cuidava do jardim pessoalmente. Durante anos, carregou água em recipientes de barro para regar as plantas que havia cultivado.
Moradores da aldeia, visitantes, funcionários públicos, doentes, comerciantes, agricultores, homens, mulheres e crianças: todos eram acolhidos por Baba com o mesmo amor. E essa entrega não se limitava aos seres humanos; estendia-se também aos animais. O Shri Sai Satcharita nos presenteia com episódios enternecedores em que Baba alimenta cães — seja com Suas próprias mãos, seja sentindo-Se saciado quando um cão é alimentado —, cura cavalos feridos e fala com pássaros como quem fala com amigos. Em Sua maneira simples de agir, Ele demonstrava repetidamente Sua unidade com todos os seres, ensinando que a presença divina pulsa igualmente em toda a criação.
Nos últimos anos de Sua vida na Terra, Baba passou a alternar as noites entre a Dwarkamai e a Chavadi, um edifício que servia à comunidade local para reuniões e outras atividades coletivas. Em muitas dessas ocasiões, Seu deslocamento era acompanhado por procissões pelas ruas da aldeia. Os devotos cantavam, tocavam instrumentos musicais e acompanhavam Baba com profunda reverência. Essas procissões revelam o amor e a devoção que Sua presença despertava entre aqueles que conviviam com Ele.
A lembrança dessas procissões permanece viva até hoje. Todas as quintas-feiras, Shirdi revive simbolicamente esse percurso por meio da tradicional Procissão do Palki. O cortejo parte do Samadhi Mandir, segue até a Dwarkamai e depois até a Chavadi, conduzindo a fotografia de Baba, Suas padukas e Seu satka. Ao final, realiza-se o aarti na Chavadi, preservando uma tradição que remonta ao período em que Baba ainda caminhava pelas ruas da aldeia.
Com o passar dos anos, os milagres associados a Baba, as curas, as graças recebidas, os sonhos, as orientações e as experiências vividas por aqueles que O procuravam fizeram com que Sua fama ultrapassasse os limites da pequena aldeia. Pessoas de diferentes regiões da Índia passaram a viajar até Shirdi para receber Seu darshan, ouvir Suas palavras e buscar Suas bênçãos. Hoje, peregrinos de todas as partes do mundo visitam Shirdi movidos pelo mesmo amor que não se esgota.
Descrever a vida de Sai Baba em Shirdi é tarefa simples e difícil ao mesmo tempo. Simples porque Seus dias eram feitos de gestos cotidianos: manter o dhuni aceso, acolher Seus devotos, cozinhar para eles, distribuir a udi, percorrer a aldeia em bhiksha, caminhar até o Lendi Baug e seguir para a Chavadi. Difícil porque, por trás desses mesmos gestos, encontram-se ensinamentos, leelas e formas de orientação voltadas para o que há de mais elevado na vida espiritual. Em muitas ocasiões, Baba afirmou ter vindo ao mundo material para conduzir Seus devotos ao destino supremo. E assim, quanto mais se tenta resumir Sua vida em poucas palavras, mais ela escapa a qualquer definição, permanecendo sempre próxima, profunda e inesgotável.
A vida de Baba em Shirdi
Sai Baba é conhecido por milhões de pessoas como o Santo de Shirdi. Embora a palavra "santo" tenha origem na tradição cristã, ela passou a ser utilizada de forma mais ampla na Índia para designar homens e mulheres reconhecidos por sua sabedoria espiritual, seus milagres e sua capacidade de orientar aqueles que os procuram.
No sagrado livro Shri Sai Satcharita, Hemadpant descreve os santos como seres que encarnam para trazer de volta a Deus os espíritos daqueles que jamais pronunciaram Seu Nome e que não têm fé nem devoção — orientando-os no caminho espiritual. A companhia dos santos (o Satsang) é apresentada como um dos meios mais elevados de purificação espiritual: destrói o ego, dissolve os laços com o mundo material e conduz o devoto à paz duradoura. Por meio dela, o indivíduo fortalece a fé, recebe instrução espiritual sem esforço e se aproxima progressivamente da Verdade.
Foi dessa forma que muitos passaram a reconhecer Shirdi Sai Baba. Homens e mulheres de diferentes origens procuravam Baba em busca de cura, proteção, auxílio material, consolo, solução para dificuldades ou orientação espiritual. No entanto, aqueles que conviviam com Ele logo percebiam que Sua atuação não se limitava à resolução de problemas imediatos. Por trás dos acontecimentos cotidianos, dos milagres e das graças recebidas, encontrava-se um ensinamento mais profundo.
Baba mesmo expressou essa dimensão de maneira direta, ainda que cifrada: “Dou às pessoas o que elas pedem, até que elas peçam o que Eu quero dar”. Breve, como era Seu costume, a frase revela, a quem souber ouvir, a profundidade de Seu propósito de atender às necessidades imediatas de Seus filhos como apenas o ponto de partida para conduzi-los ao que verdadeiramente importava.
Uma das características mais marcantes de Baba era Sua maneira singular de ensinar. Diferentemente de muitos mestres espirituais, Ele não recorria a longos discursos ou explicações sistemáticas. Muitas vezes, uma única frase, uma pergunta inesperada, uma ordem aparentemente simples ou mesmo um acontecimento cotidiano tornavam-se instrumentos de uma grande lição. Não raro, o significado de Suas palavras ou ações só era compreendido muito tempo depois.
O Shri Sai Satcharita mostra também que Baba não estabelecia uma única prática espiritual para todos os devotos. Não havia doutrina, nem sistema, nem um conjunto de práticas religiosas a serem seguidas, nem um programa de meditação, nem Vedanta, nem Yoga. Em vez disso, Ele orientava cada pessoa de acordo com suas necessidades e seu estágio de desenvolvimento espiritual. Em diferentes ocasiões, Ele recomendou a leitura de textos sagrados, como o Vishnu Sahasranama e o Eknath Bhagavad. A outros, ensinava por meio de histórias, sonhos, símbolos, situações da vida cotidiana ou da simples convivência. Cada devoto recebia aquilo de que necessitava. Havia ainda aqueles que eram salvos por Baba de acidentes e doenças, quando Ele absorvia em Seu próprio corpo o sofrimento que caberia ao devoto.
Outro aspecto frequentemente mencionado por Hemadpant era a forma como Baba corrigia aqueles que se aproximavam d'Ele. Em alguns momentos, podia parecer severo, irado ou irritado. No entanto, Seus devotos compreendiam que esta era uma manifestação exterior (nem sempre inteligível à mente humana), por trás da qual “ondas de amor transbordavam no interior do coração”, como registra o autor do Sai Satcharita. Não nascia do ego nem da irritação comum, mas fazia parte de Seu modo de orientar, proteger e transformar aqueles que estavam sob Seus cuidados.
Os relatos preservados no Shri Sai Satcharita revelam ainda a profunda relação que Baba estabeleceu com Seus devotos. Abdul Baba, Kakasaheb Dixit, Mhalsapati, Baijabai, Tatya Kote Patil, Nana Chandorkar, Radhakrishna Mai e muitos outros encontraram n'Ele o guia espiritual para cuja presença eles entregaram inteiramente suas vidas. Cada relação possuía características próprias, mas todas eram sustentadas pela mesma confiança no amor e na graça do Mestre.
Por essa razão, Baba não foi lembrado apenas como um realizador de milagres ou um homem santo. Para inúmeros devotos, Ele era o Guru, o Sadguru, o “Parabrahma Encarnado”, que “governa sobre Maya, a ilusão deste mundo”. Seus ensinamentos, Suas leelas e Sua presença continuam vivos nas páginas do Shri Sai Satcharita e na experiência de devoção preservada por gerações. E ainda assim, ou talvez justamente por isso, O chama de santo. O santo de Shirdi.
O Santo de Shirdi
O caminho que Shirdi Sai ensinava tinha um nome: Guru-marg. Esse caminho se fundava na crença da Unidade entre Deus e o Guru, e entre o Guru e o devoto. Era o caminho da devoção, e o único que Baba indicava. O Shri Sai Satcharita é direto a esse respeito: uma vez que o devoto conquista a graça do Guru, este assume a responsabilidade por ele — não apenas nesta vida, mas em nascimento após nascimento, até que a meta seja alcançada.
Mas o que o Guru pedia em troca? Apenas duas moedas. É Baba mesmo quem conta: seu Guru, um grande santo, pediu-lhe apenas dois pice (moeda vigente da época); não exatamente dinheiro, mas Shraddha (fé inabalável) e Saburi (paciência corajosa/perseverança). O Shri Sai Satcharita as descreve como irmãs inseparáveis, mais caras uma à outra do que a própria vida. “Fé absoluta e paciência com coragem", disse Baba, "são como Uma-Maheshwar [o nome de Shiva e Parvati reunidos], andam juntas; e sem a bênção que elas derramam sobre a cabeça do devoto, o Onipresente que habita em nossos corações jamais poderá ser realizado” (cap. 37, verso 60).
As palavras “Allah Malik” estavam constantemente nos lábios de Baba. Reis e mendigos, hindus e muçulmanos eram recebidos por Ele com a mesma medida. Baba não gostava de disputas, argumentações ou discussões inúteis. "De Seus lábios fluía o Vedanta perfeito", registra Hemadpant (cap. 7, verso 31). E, até o fim, ninguém conseguiu determinar com certeza se Ele era hindu ou muçulmano, afinal sua vida transcendia as fronteiras que nós humanos traçamos entre as religiões.
O sagrado Shri Sai Satcharita preserva ainda as promessas que Baba fez a seus devotos, algo que o próprio livro apresenta como válidas para quem quer que se aproxime Dele com fé. “Aquele que se entrega a Mim com inteira devoção, canta Meus louvores com plena fé, lembra-se de Mim e contempla-Me; sua libertação é Minha promessa” (cap. 3, verso 15). E mais: “mesmo que Minhas histórias sejam apenas ouvidas, todas as doenças serão curadas. E Eu arrancarei Meu devoto das garras da morte” (cap. 3, verso 17).
Quanto aos milagres, o Shri Sai Satcharita é preciso: Baba não os realizava, eles simplesmente aconteciam (Introdução, Sai Satcharita). Curas de doenças consideradas incuráveis, proteção à distância, aparições em sonhos, controle dos elementos, conhecimento dos pensamentos mais íntimos dos devotos, gestações que há muito não vinham. Hemadpant os narra não como eventos excepcionais com fim em si mesmos, mas como expressão natural dos poderes espirituais e yóguicos de Baba — e, acima de tudo, como manifestação de Sua graça sobre aqueles que depositavam Nele sua confiança. Em cada um desses episódios, o milagre expressa a presença viva do Guru na vida do devoto. Ao ler sobre os ensinamentos de Shirdi Sai, fica-nos a impressão de que o verdadeiro milagre não está no fenômeno em si, mas, acima de tudo, na fé e no amor que ele desperta em nossos corações.
Breves notas sobre ensinamentos de Baba
A pergunta sobre a identidade religiosa de Shirdi Sai Baba perseguiu seus contemporâneos e ainda hoje ecoa entre seus devotos. Seria Ele hindu ou muçulmano? O Shri Sai Satcharita não resolve essa questão, mas a apresenta em toda a sua complexidade, mostrando que Baba estava além de qualquer classificação ao mesmo tempo em que combinava características das duas tradições.
"Se considerado hindu, ele parecia muçulmano; e se muçulmano, exibia todas as qualidades de um bom hindu. Ninguém, mesmo com toda a sua proficiência e erudição, poderia descrever tal avatar extraordinário" (Shri Sai Satcharita, cap. 7, verso 4). Em seguida, o autor é ainda mais direto: "nem hindu, nem muçulmano — tal era este Sai, a própria encarnação da santidade" (cap. 7, verso 13).
O Sai Satcharita descreve um jogo de fronteiras que Baba habitava com naturalidade. Seus gestos e práticas pareciam dançar entre as tradições, ora acenando a uma, ora a outra, sem jamais se fixar em nenhuma delas. Ele vivia numa mesquita (o espaço sagrado da tradição islâmica, que Ele chamava de Dwarkamai), mas ali o fogo do dhuni ardia dia e noite como prática hindu. Na mesma mesquita, sinos e concha ressoavam (instrumentos típicos dos templos hindus) e um Tulsi-brindavan, o altar onde se cultiva a planta sagrada para o hinduísmo, estava no pórtico. Brâmanes, os sacerdotes hindus que seguem rigorosas regras de pureza, prostravam-se a Seus pés.
Baba celebrava o Ramanavami, o nascimento do deus hindu Rama, com a mesma naturalidade com que permitia o Namaz, a oração muçulmana, durante o Id. Autorizava a procissão do Sandal, uma cerimônia islâmica, e no Muharram (o período de luto muçulmano) o Taboot, uma representação simbólica carregada em procissão, permanecia por quatro dias na mesquita. Hemadpant registra: "no Ramanavami (festa hindu) mandava atrelar o berço no sabhamandap e fazer kirtan. Na mesma noite, concedia permissão aos muçulmanos para a procissão do Sandal" (cap. 7, versos 6-7). E conclui: "no Id, o Namaz não era proibido. no Muharram, o Taja permanecia quatro dias na mesquita" (cap. 7, versos 11-12).
Shirdi Sai não incentivava hindus a participar de rituais muçulmanos nem muçulmanos a adotar práticas hindus. Cada tradição era observada e honrada em sua integridade, dentro do mesmo espaço devocional. Ele esperava que houvesse boa vontade e tolerância entre hindus e muçulmanos. E, ao mesmo tempo, a convivência de ambas as tradições em torno Dele desafiava as tentativas de enquadrá-Lo em uma das duas religiões.
"Quando Ram e Rahim são um, sem a menor diferença entre eles, então por que seus seguidores deveriam insistir em sua separação?" (capítulo 10, verso 50). Para Baba, a separação simplesmente não fazia sentido. Suas palavras mais frequentes eram "Allah Malik" ("Deus é o Senhor") e quando Seu médico queria tratar Sua mão queimada, Baba repetia: "Allah é nosso vaidya" ("Deus é o médico" do Ayurveda, medicina tradicional indiana) (cap. 7, verso 88).
Aqueles que iam a Shirdi para investigar Sua identidade encontravam o mesmo impasse. Hemadpant escreve: "os que vinham descobrir por si mesmos comportavam-se da mesma maneira — e após seu darshan, ficavam em silêncio" (cap. 7, verso 18). O Satcharita não resolve o enigma, e esta não parece ser a intenção do autor. Antes, o livro sagrado mostra em diversas leelas que Baba estava no Todo e era o Todo. A pergunta sobre Sua identidade religiosa perdia o sentido. E o silêncio que Seus devotos encontravam era a única resposta que o aparente enigma permitia.